Feira Plana

Matheus Chiaratti conversa con Bia Bittencourt mientras Ana Lobo recorre la feria con su cámara

Em meio às correntes mudanças políticas no Brasil que levaram ao impeachment da presidenta Dilma Roussef e consequentemente à extinção do Ministério da Cultura, formas de resistência têm sido cada vez mais importantes para a intermediação de manifestos culturais de artistas junto a um público em ebulição e crescente. Nesse sentido, a Feira Plana desde 2013 é um canal imprescindível e viável para a publicação independente no país que auto-gestiona um movimento diverso e crescente. Bia Bittencourt é sua idealizadora.


O que era a feira Plana quando começou e o que é agora?


A Feira começou em 2013 e não existia muito a coisa definida de se ter editoras enquanto nomes e se pensarem como editoras. No início, eram artistas convidados que inventavam editoras fictícias. Foi muito significativo ver essa mudança e principalmente perceber que os visitantes da primeira viraram editores da segunda. Nas últimas, aconteceu naturalmente o conceito editorial e quanto ao público, foi brutal, de 2000 visitantes a 12000 num final de semana. O tema sempre foi um guia e um norte para a programação paralela da feira, porque o que mais me interessa é o pensamento naquilo e o seu desdobramento, experimentações de um campo pictórico que foi se tornando mais abstrato: fotografia, preto e branco e agora fim do mundo.

Como você vê a feira no contexto independente nacional e da América Latina, sobretudo? Como ela dialoga com outras feiras?


Quando a Plana surgiu, a Tijuana era a única que existia, mais focada em livros de artista e no ambiente de uma galeria. Foi brutal perceber através de um open call que tinha um movimento desesperado de produção querendo ser produzido. Minha maior preocupação sempre foi o conceito por trás disso, de o que estamos fazendo e onde vamos parar. Quanto ao contexto da América Latina, a Tijuana sempre teve esse mérito e essa pesquisa, meu foco é trazer gente de fora e mostrar que temos uma produção fervilhante por aqui, é transformar a feira numa espécie de catalisador.


Por que na Bienal e o que isso muda? Na Bienal, foi um convite que ponderei várias vezes. No MIS (Museu de Imagem e do Som), tínhamos a limitação da agenda onde a feira tinha que se encaixar num período de entre-exposições, e neste ano tivemos que fazer em janeiro, que não foi uma experiência muito boa. Já na Bienal, eu preciso de muito mais dinheiro para produzir. E com certeza a arquitetura influencia a cara de qualquer feira. Lidar com o espaço do Niemayer vai ser o grande desafio, construindo do zero em um espaço totalmente bruto e imenso. Uma das vantagens é o público espontâneo que isso vai gerar, já que ela é no meio do parque do Ibiraquera que por si só já atrai muita gente.

A Casa Plana vai ser o quê?


Sempre quis fazer uma permanência da Plana onde pudesse gerar um QG tanto para a produção quanto para a experimentação, que os editores pudessem vir e usar do espaço, onde vai haver cursos, palestras, residência. Tenho já uma programação até março e um espaço incrível no Farol, um prédio no meio do centro.


Quais editores ou zines dessa última edição você indicaria?


Com o passar das edições, o nível ficou mais apurado quanto ao refinamento gráfico e o de conteúdo também. As publicações ficaram mais elaboradas e mais caras. Um exemplo bom é a Vibrant que começou fazendo uns livrinhos de fotografia e agora fazem super projetos de fotolivros, sem dúvida um dos mais importantes da América Latina. O livro Correspondência da Manuela Costalima eu acho muito importante, um trabalho complexo de conceito e impressão com as meninas da Pingado. O interessante é perceber que são editoras que estão num processo de entendimento do que somos e se assumir enquanto editoras, para onde vamos e o que vamos fazer. Essa é uma preocupação importante.

A Feira e todo o projeto Plana não deixa de ser uma resistência aos novos tempos da internet e do consumo rápido imaterial e porque não ao momento político em que vivemos também? O que você como legado?


Ainda acho delicado pensar nisso agora, justamente por conta de todas essas mudanças. Antes, era uma resistência enorme, nunca tirei um centavo, e as pessoas nem imaginam o processo de produção da feira. Agora estou entrando no universo de captação, da lei de incentivo para poder começar a pagar direito e institucionalizar mais.


Tenho sim percebido um certo desânimo por conta da crise, porque todo mundo gasta pra produzir sem ter certeza de um retorno e eu não tenho uma resposta de onde isso vai parar. Todo ano eu penso em desistir e nem consigo enxergar a feira daqui a 30 anos, pode ser que acabe, pode ser que vire outra coisa. Não me preocupo como marca, nem como conceito, se for pra acontecer num momento e ser uma voz para isso, ótimo, não quero que seja uma obrigação.